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	<title>Coletivo Feminista Nisia Floresta, Autor em Respeita as Bruxas da Quebrada</title>
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	<description>Wicca, Bruxaria, Sagrado Feminino e Paganismo</description>
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	<title>Coletivo Feminista Nisia Floresta, Autor em Respeita as Bruxas da Quebrada</title>
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		<title>Sobre livros, Mas não só</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Coletivo Feminista Nisia Floresta]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Aug 2021 09:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[empoderamento feminino]]></category>
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		<category><![CDATA[luta das mulheres]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Você sabia que desde muitos tempo, boa parte dos homens não lêem livros escritos por mulheres? Venha entender mais sobre esse tema.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Sobre livros, Mas não só</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>Dizer que um homem é heterossexual implica somente no fato de que ele mantém relações sexuais exclusivamente com o sexo oposto, ou seja, mulheres. Tudo ou quase tudo que diz respeito ao amor, a maioria dos homens heterossexuais reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admiram, respeitam, adoram, reverenciam, a quem honram, imitam, idolatram e formam profundos vínculos, a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender, e cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam, essas são, esmagadoramente, outros homens. Nas suas relações com as mulheres, o que passa por respeito é bondade, generosidade ou paternalismo, o que passa por honra é a remoção do pedestal. Das mulheres querem devoção, serviço e sexo. A cultura heterossexual masculina é homo afetiva, ela cultiva o amor pelos homens</em></p><cite>Marilyn Frye</cite></blockquote>



<p>A citação acima, da filósofa e teórica feminista estadunidense Marilyn Frye, vive retornando à minha vida, e desta última vez foi por conta de uma matéria do jornal inglês The Guardian, chamada “Porque tão poucos homens leem livros escritos por mulheres?”<sup>2</sup>. A própria autora do artigo se identifica como MA Sieghart, não Mary Ann Sieghart, seu nome completo, e justifica: “porque eu realmente quero que homens também leiam isto”. O mecanismo, nada contemporâneo, vem desde George Elliot, pseudônimo de Mary Ann Evans, romancista britânica nascida em 1819, e George Sand, pseudônimo de Amandine Aurore Lucile Dupin, romancista francesa nascida em 1804, que se utilizaram do expediente do pseudônimo masculino, e com isso, persuadir homens a lerem suas obras. Exemplo anacrônico? Pense em JK Rowling, autora do best seller juvenil Harry Potter; E.L. James, autora do hit “Cinquenta tons de Cinza”.&nbsp; O apagamento do gênero nas autoras contemporâneas é mais sutil, mas não deixa de ter a mesma raiz das primeiras autoras. Mais de um século depois. Donde a citação de Frye mais uma vez me veio à memória.&nbsp;</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" src="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/07/1-Sobre-livros-–-mas-não-só-1.jpg" alt="" class="wp-image-3153" width="580" height="326" srcset="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/07/1-Sobre-livros-–-mas-não-só-1.jpg 824w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/07/1-Sobre-livros-–-mas-não-só-1-300x169.jpg 300w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/07/1-Sobre-livros-–-mas-não-só-1-768x432.jpg 768w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/07/1-Sobre-livros-–-mas-não-só-1-480x270.jpg 480w" sizes="(max-width: 580px) 100vw, 580px" /><figcaption><em>Amandine Aurore Lucile Dupin (George Sand) e Mary Ann Evans (George Eliot): duas escritoras que utilizaram pseudônimos masculinos para serem levadas a sério pelo público masculino.</em></figcaption></figure></div>



<p>O que fica subjacente a essa decisão de escritoras omitirem seu gênero é que, para despertar a empatia de um homem a um determinado produto cultural (e não só, essa empatia serve-se a qualquer <em>locus </em>social), é preciso a princípio ser também um homem. &nbsp;O parça. O brother. O mano com quem se divide a cerveja, o jogo de futebol, a amizade verdadeira – há amizade verdadeira entre um homem e uma mulher heterossexuais? Camila Rufato Duarte sabiamente escreve para o portal Catarinas no artigo “<a href="https://catarinas.info/homens-amam-outros-homens-o-olhar-para-a-mulher-e-apenas-sexual/">Homens amam outros homens</a>”: </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>“Para homens, mulheres não servem para ser amigas. Muitos se casam e, mesmo tendo escolhido dividir a vida com aquela mulher, nem de perto a considera uma amiga. Quantos amigos homens cis e héteros você tem ou já teve? Desses, quantos te admiraram sem te desejar sexualmente?”</em></p><cite>Camila Rufato Duarte</cite></blockquote>



<p>Se olharmos para tempos ainda mais remotos, na cultura grega clássica, as mulheres são seres secundários (ainda lutamos contra isso, é fato), equiparadas socialmente aos escravos. A efervescência intelectual do período era uma intelectualidade exercida, praticada e partilhada por, para e entre homens. Uma imensa broderagem, essa prática que, em 2021, significa a relação entre homens heterossexuais que curtem outros homens, mas não se autodenominam homossexuais, muitos com posicionamento de extrema direita e/ou parte do movimento masculinista, que defende a supremacia masculina dentre outros valores retrógrados ligados a gênero, como o “pensador” Jack Donovan.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" width="232" height="358" src="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/07/2-Sobre-livros-–-mas-não-só-1.png" alt="" class="wp-image-3155" srcset="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/07/2-Sobre-livros-–-mas-não-só-1.png 232w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/07/2-Sobre-livros-–-mas-não-só-1-194x300.png 194w" sizes="(max-width: 232px) 100vw, 232px" /><figcaption><em>Detalhe de ânfora ateniense datada de V a.C.</em></figcaption></figure></div>



<p>Da Antiguidade clássica ao século XXI, a mesma irmandade instintiva, ancestral, rede invisível que Frye resume magistralmente. Ler esta citação pela primeira vez, anos atrás, foi para mim uma imensa epifania. “<em>A cultura heterossexual masculina é homoafetiva” – </em>a partir daí muitas questões relacionadas que eu alimentava, sem resposta, foram tomando forma.&nbsp;</p>



<p>Voltando à matéria instigadora deste artigo, que traz a cena literária como embasamento, é sobre este recorte que passo a falar, já que a acompanho e dela faço parte, apesar da transição para qualquer outro espaço social ser válida e plausível. O apagamento de diversas autoras brasileiras é uma marca da nossa história literária – Maria Firmina dos Reis, mulher, negra, nordestina, primeira romancista brasileira (lançou “Úrsula”, romance abolicionista em 1859), por exemplo, foi esquecida por décadas. Muitas outras escritoras tiveram o mesmo destino, talvez nem todas venham a ser redescobertas. Por outro lado, vem ocorrendo uma maior participação nestes espaços das ditas minorias (não gosto do termo já que se relaciona a uma maioria numérica; uso-o aqui porque é como se consolidou o termo utilizado para grupos sociais diminuídos em suas mais diversas esferas de participação, importância e valoração social). Porém, sinto que por ora, embora seja animador o cenário de ampliação da participação das mulheres nestes eventos, somos ainda uma certa “cota”. Bem creio que alguns homens a cargo de curadoria em cultura devem lá pensar na “necessidade” de chamar negros, indígenas, mulheres, representantes LGBTQIA+. Necessidade aqui vai entre aspas porque irônica. Porque muita vez me soa mais como um item de checklist para passar ileso pelo crivo do espírito da época, no qual mulheres, negros e indígenas e LGBTQUIA+ têm justamente reclamado seus espaços de participação na sociedade.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" width="519" height="354" src="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/07/3-Sobre-livros-–-mas-não-só-1.jpg" alt="" class="wp-image-3157" srcset="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/07/3-Sobre-livros-–-mas-não-só-1.jpg 519w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/07/3-Sobre-livros-–-mas-não-só-1-300x205.jpg 300w" sizes="(max-width: 519px) 100vw, 519px" /><figcaption><em>Formação inicial da Academia Brasileira de Letras, cujo Regimento Interno teve o artigo relacionado à elegibilidade alterado para “os membros efetivos serão eleitos, dentre os brasileiros, do sexo masculino”, após a tentativa de entrada de escritoras.</em></figcaption></figure></div>



<p>Porém: quanto da escolha por esses atores sociais em mesas de discussão, lançamentos, publicações, peças publicitárias etc. é impulsionado por uma consciência genuína de reparação e mudança de discurso, quanto é impulsionado por uma pressão do ter que fazer tais escolhas para obedecer a uma agenda social? Quantos homens, acaso não houvesse essa demanda, não permaneceriam lendo, escolhendo, elogiando, homenageando apenas seus pares? Ainda bem, também, que muito mais mulheres estão à frente dessas curadorias. Mas caminhamos um percurso que me parece por vezes ainda didático.</p>



<p>À parte o teor analítico entre o conceito de Frye e a literatura, o perigo real reside sobre a construção de uma violência institucional que considera, valoriza e protege pessoas que estão dentro dessa possibilidade única de existir: homem, heterossexual (e porque não acrescentar, branco). É a mulher enquanto anexo do existir, penduricalho sexual, como quem exibe um relógio ou um carro, um objeto, um <em>status</em>. A coisificação da mulher, porque o amor, esse sentimento máximo, só pode ser reservado a seus iguais. A mulher para o uso, para o abuso, para o silêncio. A narrativa do mundo, sendo deles, torna o mundo deles; a experiência humana reduzida a um ponto de vista único: </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>“Se os homens não lerem livros feitos por e sobre mulheres, eles não conseguirão entender nossa psique e nossa experiência de vida. Eles continuarão a ver o mundo através de lentes quase inteiramente masculinas, com a experiência masculina como padrão.” </em></p></blockquote>



<p>Em que evoluíram os homens que só reforçam dia após dia o enunciado da filósofa Marilyn Frye? <em></em></p>



<p>É sobre livros, mas não só.</p>



<p class="has-text-align-right"><em><strong>Michele Santos – Coletivo Feminista Nísia Floresta</strong></em></p>



<p></p>



<p>BIBLIOGRAFIA E REFERÊNCIAS:</p>



<ol class="wp-block-list" type="1"><li>Frye, Marilyn. ”The Politics of reality: Essays in feminist Theory” &#8211; Marilyn Frye</li><li>Sieghart, Mary Ann. “Why do so few men read books by women?” (“Porque tão poucos homens leem livros escritos por mulheres?”)&nbsp; <a href="https://www.theguardian.com/books/2021/jul/09/why-do-so-few-men-read-books-by-women?s=08">https://www.theguardian.com/books/2021/jul/09/why-do-so-few-men-read-books-by-women?s=08</a></li><li>Duarte, Camila Rufato. “Homens amam outros homens: o olhar para a mulher é apenas sexual” <a href="https://catarinas.info/homens-amam-outros-homens-o-olhar-para-a-mulher-e-apenas-sexual/">https://catarinas.info/homens-amam-outros-homens-o-olhar-para-a-mulher-e-apenas-sexual/</a></li><li>Machado, Rosana Pinheiro. “Pensador da extrema direita, Jack Donovan radicaliza o machismo” <a href="https://theintercept.com/2019/05/27/jack-donovan-machos-em-crise/">https://theintercept.com/2019/05/27/jack-donovan-machos-em-crise/</a></li></ol>



<p>Bernardino, Danilo. “Mulheres úmidas e homens secos: representações de gênero no mundo grego antigo” <a href="https://www.cafehistoria.com.br/mulheres-umidas-homens-secos-genero-na-grecia-antiga/">https://www.cafehistoria.com.br/mulheres-umidas-homens-secos-genero-na-grecia-antiga/</a></p>



<p></p>



<p>Leia Também:</p>



<p>&#8211; <a href="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/a-inspiracao-da-deusa-mandi/">A inspiração da Deusa Mandí</a></p>



<p>&#8211; <a href="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/a-criminalizacao-do-aborto/">A Criminalização do Aborto e a Vulnerabilidade da Mulher</a></p>
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		<title>A inspiração da Deusa Mandí</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Coletivo Feminista Nisia Floresta]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 15 Jun 2021 09:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[Sagrado Feminino]]></category>
		<category><![CDATA[deusas indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[folclore feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[indígena albino]]></category>
		<category><![CDATA[indigena brasileiro]]></category>
		<category><![CDATA[lendas]]></category>
		<category><![CDATA[mandi]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A inspiração da Deusa Mandí que queria ser LIVRE e deixou de presente a técnica de plantio da mandioca para as mulheres Tupi.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>A inspiração da Deusa Mandí que queria ser LIVRE</strong></p>



<p><em>Ilustração de capa por <a href="https://www.instagram.com/clariceleal_arte/">Clarice Leal</a></em></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>Nós mulheres indígenas não somos uma homogeneidade. Possuímos diferentes maneiras de compreender e estar no mundo segundo fomos ensinadas por nossas mais velhas.</p><cite>Márcia Kambeba</cite></blockquote>



<p>Trago para nosso círculo, a força ancestral de Mandí (em língua Tupi). É uma história única de tradição <strong>oral</strong> ancestral que provém da força de um ser muito sagrado que mudou a realidade das mulheres Tupi.</p>



<p>Aconteceu há muito tempo, há mais de quinze mil anos, quando o colonizador ainda não havia chegado aqui nessas terras.&nbsp; Em uma casinha de sapê, morava um casal de anciões sem filhos.</p>



<p>Nessa época, o <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Tupis">povo Tupi</a> não seguia os calendários do homem branco de hoje.  O tempo era medido em Luas e os anos, em taquaras (bambu). O tempo de vida de uma taquara é de trinta anos, então, ter uma taquara significa ter 30 anos.</p>



<p>Esse casal de anciãos já tinha mais de três taquaras de vida e nunca conseguiram ter nenhum filho. A comunidade vivia em harmonia e todos se ajudavam, mas cada clã (família) precisava colher seus alimentos. Eles também plantavam, mas não esse plantar de hoje, como a agricultura, era o plantar de jogar as sementes e as cascas que não fossem utilizadas em lugares onde pudessem descansar e renovar o solo para no futuro crescer novamente num ciclo novo de vida.</p>



<p>Esses anciões já estavam cansados, nessa época eles viviam muito tristes porque já não conseguiam fazer as coisas como na juventude e não conseguiam alimentos com facilidade na região. Essa tristeza aumentou quando começou a faltar alimento para todos e eles pensavam que a única maneira seria ter alguém os ajudando, que pudesse subir nas árvores e colher os frutos mais fresquinhos.</p>



<p>Numa tarde, eles voltavam para casa chorando pela dificuldade para conseguir encontrar alimentos para sua sobrevivência, olharam para o céu claro, mesmo já anoitecendo. Foram andando e observando Djatsy, que estava grande e cheia, então, fizeram um pedido para que a Lua os levasse embora para mundo sem mal e seguiram para casa onde foram dormir. Quando dormiram sonharam e, no sonho, viram um brilho muito forte como quando a luz da lua entra pela janela. Era o espírito de Djatsy que veio até eles e os cumprimentou dizendo:</p>



<p>“<em>Pyntū Porã! Eis que ouvi o clamor e a voz de vocês. Vim trazer o que há de melhor no céu, é uma estrela brilhante, Djatsy Tatá&#8217;í. Um dos seres mais incríveis do universo, o ser mais feliz de todo o céu! A deixarei com vocês e deverão cuidar bem dela.</em> ” Djatsy foi embora e junto todo brilho se foi.</p>



<p>Quando acordaram o marido viu a esposa e contou sobre seu sonho com Djatsy. A esposa ficou surpresa e confirmou que também tivera o mesmo sonho. Ficaram felizes e contaram para todos da aldeia que iriam ser pais, mas ninguém, ninguém acreditou, todos os achavam velhos demais para serem pais.</p>



<p>A barriga da mulher começou a crescer e conforme ia crescendo as pessoas olhavam e comentavam de sua velhice, enquanto ela se sentia muito bem, feliz e animada com vontade de fazer tantas coisas.</p>



<p>Quando chegou o tempo de nascer, chamaram a parteira. O tempo parou, todos os seres da floresta ficaram em silêncio, de repente deu um brilho imenso que iluminou tudo num grande clarão, a criança nasceu e ouviu-se um forte grito do bebê nascendo. Então, o pai chegou para olhar a criança achando que seria o filho tão esperado e viu a menina. Ficou desesperado, ainda mais porque não teria a esperada ajuda e não sabia como iriam sobreviver e alimentar mais uma pessoa, pois já não estavam conseguindo se alimentar naqueles tempos difíceis.</p>



<p>À linda menina, de pele muito branca e de cabelos claríssimos como o luar, deram o nome de Mandí. Acredita-se que ela foi a primeira criança albina que nasceu nessas terras.</p>



<p>Todos os aldeões iam visitar a criança nascida e ficavam espantados com aquela criança de aparência tão diferente de todo povo Tupi. O tempo foi passando e Mandí não se importava com os olhares e comentários, ela era muito feliz, sorridente e se comunicava com as plantas e animais mesmo antes de aprender a falar, por isso, estava sempre cercada por diversos animais.</p>



<p>Mandí queria plantar e naquela época as mulheres não plantavam. &nbsp;Essa era uma tarefa apenas dos homens, as mulheres participavam do preparo dos alimentos. Mandí gostava de ser livre e de estar em harmonia com os seres da floresta.</p>



<p>Um dia ela encontrou uma semente de milho verdadeiro e plantou, sem que ninguém visse. Logo cresceu um milharal muito bonito. Quando ela começou a distribuir as espigas, todos os aldeões e grandes líderes viram sua felicidade e por ter um milharal tão belo a puniram. Mandí foi trancada em uma casa com outras mulheres que estavam ali, onde ficou por quatro ou cinco anos, mas ela ainda tinha esperança de resolver o problema da fome de seu povo.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="900" height="600" src="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/06/a_deusa_mandi_1-1.png" alt="" class="wp-image-3061" srcset="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/06/a_deusa_mandi_1-1.png 900w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/06/a_deusa_mandi_1-1-300x200.png 300w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/06/a_deusa_mandi_1-1-768x512.png 768w" sizes="(max-width: 900px) 100vw, 900px" /></figure></div>



<p>Com o passar do tempo ela foi se entristecendo até que um dia seu pai a chamou para contar que arranjara um casamento. Ela então ficou ainda mais triste, pensando que casar seria uma prisão pois não poderia fazer o que mais gostava que era estar na floresta e ser livre.</p>



<p>Mandí saiu correndo pela floresta, chorando tanto, foi quando o espírito de Djatsy apareceu diante dela e quis saber de sua tristeza, por ser o ser mais feliz do universo, porque estaria triste assim. Djatsy avisou que a levaria de volta para o céu. Mandí chorou e implorou para que pudesse ajudar seu povo e insistiu em fazer um único pedido antes da partida.</p>



<p>Djatsy ouviu-a e depois levou de volta seu espírito. O tempo parou como quando Mandí, nasceu e todos os seres da floresta ficaram contemplando-a. Quando os aldeões a encontraram, ela já estava morta. Então, todos os aldeões sentiram uma tristeza imensa ao se lembrar do sorriso e do jeito de ser da pequena Mandí. Logo, todos começaram a chorar e tiveram remorso pelo que fizeram com ela e levaram seu corpo para os seus pais, que receberam a notícia com muita dor.</p>



<p>Quando eles já estavam dormindo foram acordados pelo espírito de Mandi e ficaram surpresos achando que ela havia voltado, mas ela disse que apenas veio se despedir e os abraçou e agradeceu por tudo. Antes de ir embora, prometeu a sua mãe que nunca mais ela e seu povo passaria fome e pediu a seus pais, que ela fosse enterrada na Ori Gwaçu, uma casa de rituais sagrada, do povoado, também chamada de Grande Oka.</p>



<p>No mesmo momento em que ela foi enterrada, começaram o luto, o choro do povo e de Tupã que, muito triste com o ocorrido, iniciou então, uma chuva forte com grandes trovoadas. Era o choro de Tupã que era apaixonado por Djatsy Tata’í. Todos sentiram um aperto no coração era um dia de luta também para os grandes espíritos de toda existência.</p>



<p>Quando a chuva parou, a Lua desceu até o lugar onde estavam reunidos e disse a todos: <em>“Vocês não souberam amar e ouvir a estrela Mandí, o espírito mais feliz do universo que veio trazer muitos ensinamentos ao povo Tupi, mas agora é o espírito mais triste do pluriverso nesta conexão, ouçam a mensagem que ela trouxe. ”</em></p>



<p>Quando perceberam, acharam muito estranho pois no lugar onde enterraram estava remexido e o corpo não estava mais ali. No lugar, tinha uma rama e quando puxaram a rama, ela se partiu. E para surpresa de todos, a rama tinha a cor da pele de Mandí</p>



<p>Eis que Djatsy deu um grande grito, dizendo a todos: “<em>Mandí! Assim como ela ama seu povo, prometeu nunca mais deixá-los passar fome e se sacrificou para que mudanças acontecessem aqui. Mandi mandou essa raiz para alimentar seu povo. ”</em> Então, o povo ficou tão grato e emocionado que Mandí se tornou uma grande deusa para o povo Tupi que nunca mais passou fome. Mandí deixou de presente a técnica de plantio da mandioca para as mulheres Tupi. Se tornando, então, a grande inspiração para as mulheres transformando a realidade por treze mil anos. Ou até a ocasião que Anchieta chegou e modificou toda cultura Tupi.</p>



<p class="has-text-align-right">Texto de <strong>Patricia Cardoso Gomes dos Santos</strong></p>



<p class="has-text-align-right">Coletivo Feminista Nísia Floresta</p>



<p>Leia também:</p>



<p><a href="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/ser-professora-na-pandemia/">Ser professora na pandemia: sobrecargas em meio ao caos</a></p>



<p><a href="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/a-criminalizacao-do-aborto/">A Criminalização do Aborto e a Vulnerabilidade da Mulher</a></p>
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		<title>Ser professora na pandemia: sobrecargas em meio ao caos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Coletivo Feminista Nisia Floresta]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Apr 2021 09:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[empoderamento feminino]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo interseccional]]></category>
		<category><![CDATA[feridas emocionais]]></category>
		<category><![CDATA[pandemia]]></category>
		<category><![CDATA[trabalho do professor]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ser professora na pandemia: sobrecargas em meio ao caos... questões gerais do que é ser “professora”, no Brasil, durante o período do COVID-19.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Ser professora</strong> <strong>na pandemia: sobrecargas em meio ao caos</strong>.</p>



<p>A pandemia de COVID 19, perdura por mais de 1 ano, e embora não suportemos mais falar sobre ela, nesse momento é inevitável, principalmente, para que possamos refletir um pouco a respeito de algumas questões gerais do que é ser “professora”, no Brasil, durante o terrível momento histórico que estamos atravessando.</p>



<p>Antes de desenvolver de fato essa análise, precisaremos fazer alguns apontamentos acerca da escrita desse texto. As linhas que vocês lerão a partir de agora partem dos pressupostos, reflexões, questionamentos, aprendizados, vivências e dores de uma <a href="https://brasilescola.uol.com.br/sexualidade/cisgenero-transgenero.htm">mulher cisgênera</a>, branca, feminista interseccional, professora de esquerda, paulistana e periférica, ou seja, assim como todos os discursos são ideológicos, esse também será. Sendo pautado pelos marcadores sociais honestamente sinalizados acima.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Considerações extremamente relevantes</h2>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="568" height="379" src="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/04/ser_professora_na_pandemia_1-1.png" alt="" class="wp-image-2927" srcset="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/04/ser_professora_na_pandemia_1-1.png 568w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/04/ser_professora_na_pandemia_1-1-300x200.png 300w" sizes="(max-width: 568px) 100vw, 568px" /></figure></div>



<p>Outro ponto importante a ser desmistificado para o entendimento dessa escrita é a incômoda e recorrente fala do “dom” de ser professora e do trabalhar “por amor”. Quase nunca escutamos essas colocações quando estamos falando em qualquer outra profissão, entretanto quando lançamos o nosso olhar para a educação e, sobretudo, para as educadoras, elas ganham falaciosos ares de elogio, todavia, não o são e é imprescindível entender essas falas como mais uma das opressões que nos atingem diretamente.</p>



<p>O magistério, como muitas outras profissões, requer horas de estudo para que possamos desenvolvê-lo, isto é, aperfeiçoar metodologias e didáticas que possam contribuir de forma efetiva com o aprendizado de nossos alunos, em outras palavras, estudamos de forma ininterrupta em prol de técnicas para realizar o nosso ofício da melhor maneira possível e isso não é nenhum dom, e sim: trabalho duro!</p>



<p>Da mesma forma, trabalhamos para receber os nossos salários e, também, lutamos para melhorar as nossas condições salariais, como qualquer outro trabalhador que entende a urgência da luta de classes dentro do sistema capitalista, ou seja, não trabalhamos “por amor” e isso não tira a importância de nosso papel na sociedade e tampouco o valor que damos à educação. Assim, somente gostaríamos de reiterar que comentários aparentemente inocentes como os supracitados apenas servem para minimizar a nossa dedicação e a nossa competência profissional.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Professora</strong> <strong>na pandemia</strong>: Ferida latente</h2>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="568" height="379" src="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/04/ser_professora_na_pandemia_2-1.png" alt="" class="wp-image-2928" srcset="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/04/ser_professora_na_pandemia_2-1.png 568w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/04/ser_professora_na_pandemia_2-1-300x200.png 300w" sizes="(max-width: 568px) 100vw, 568px" /></figure></div>



<p>Após essas importantes considerações, vamos de fato ao assunto o qual pretendemos debater aqui. Há mais de doze meses, nossas rotinas mudaram e o ensino presencial foi aos poucos sendo substituído de forma infelizmente necessária, nesse momento, pelo ensino à distância. Por conta disso, tivemos que reaprender a ser professoras, nos desgastando mais e mais a cada dia, e quase sempre acreditamos que apesar de tudo, não estávamos fazendo o suficiente.</p>



<p>Nesse sentido, em meio ao caos de estarmos vivendo uma situação sem precedentes de forma extremamente atribulada, solitária e incerta, estávamos, também, sendo medidas o tempo todo por uma “régua” empunhada por um sistema falho que deposita todos os problemas de uma sociedade imensuravelmente desigual na escola e leva a população a acreditar que de nós virá a solução, cerceando de forma simbólica as nossas liberdades individuais. Afinal de contas, nada mais normal do quer ter medo diante do desconhecido, principalmente, quando esse desconhecido é um vírus letal, não é mesmo? Porém, não nos permitem nem mesmo o medo.</p>



<p>E esse processo, no mínimo violento, foi alimentado de forma perversa pela imprensa, que muitas vezes apresenta alguma tentativa meio que desesperada de uma educadora, para atingir os seus alunos, como um exemplo a ser seguido.  Eximindo assim o poder público de suas obrigações e exigindo cada vez mais de nós, peças menores no tabuleiro social.</p>



<p>O resultado dessas violências foram o aumento do estresse, crises de ansiedade/pânico, estima por si mesmas, caindo a níveis baixíssimos, sobrecarga de trabalho, queda vertiginosa em relação a qualidade de vida, desentendimentos com as outras pessoas com as quais dividimos a casa, diminuição da conexão com cônjuges, filhos e outros familiares, falta de esperança/perspectivas em relação ao futuro, culpa, entre outras adversidades e tudo isso gerou profundas feridas em nossa saúde emocional, feridas essas que demorarão muito a cicatrizar.</p>



<p>Lógico que entendemos o privilégio de poder exercer a nossa função por meio do <em>home office</em> e até mesmo o direito de greve, em situações extremas. Assim como, entendemos que estão sim, havendo sérios prejuízos pedagógicos e emocionais aos nossos alunos nesse momento. Prejuízos emocionais que se estendem a todas nós, também. Todavia, nenhum prejuízo pode ser maior do que a vida do indivíduo e, portanto, a máxima “ano letivo se recupera, vidas não”, é uma verdade inegável.</p>



<p>Outra verdade incontestável é que a educação é essencial. Sim, concordamos plenamente com essa fala e consideramos que ela deveria ter sido vociferada de forma repetitiva muito antes da pandemia, muito antes de que o estar em sala de aula representasse também uma ameaça as nossas vidas, as vidas de nossos alunos e de seus e de nossos familiares. Por conta disso, professores fazem greve não apenas por salários ou pela própria vida, como está acontecendo hoje na cidade de São Paulo, mas fazem greve pedindo melhores condições de trabalho, lutam para que haja sim, merenda de qualidade, acesso à tecnologia e até segurança nas escolas e em seu entorno, isto é, professores não são “vagabundos” que estão “recebendo sem trabalhar”, muito pelo contrário. Praticamente dobraram a sua jornada durante o período de ensino remoto, muitas vezes de forma altruísta, atendendo os seus alunos: fora do seu horário de trabalho e até mesmo aos fins de semana, por conta das dificuldades deles em conseguir acesso à internet. E mesmo no atual ensino hibrido, em que precisamos nos revezar entre a sala de aula e as aulas virtuais, as demandas não diminuíram, muito pelo contrário, só fazem aumentar. Lembrando que todas as decisões que envolvem a educação são tomadas de cima para baixo, ou seja, a nossa opinião e as nossas experiências não foram levadas em consideração nenhuma vez.</p>



<p>Vale lembrar que quando falamos em “professoras”, o nível de exigências se torna muito maior, uma vez que muitas de nós também somos mães e precisamos auxiliar os nossos próprios filhos no ensino à distância e assim como a educação dos filhos, o trabalho doméstico e o cuidado com pais e avós são na maioria das vezes incutidos compulsoriamente a nós, mulheres.  Desse modo, somos obrigadas a seguir em frente como se fossemos super-heroínas do mundo Marvel e não seres humanos desgovernados, no sentido mais lato da palavra. Afinal, a máquina não pode parar!</p>



<h2 class="wp-block-heading">Libertando-se de culpas ilusórias</h2>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="568" height="379" src="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/04/ser_professora_na_pandemia_3-1.png" alt="" class="wp-image-2931" srcset="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/04/ser_professora_na_pandemia_3-1.png 568w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/04/ser_professora_na_pandemia_3-1-300x200.png 300w" sizes="(max-width: 568px) 100vw, 568px" /></figure></div>



<p>Consequentemente, vimos a emancipação feminina sendo resignificada de forma esdrúxula, como mais uma maneira de nos oprimir, e nos levando a acreditar que precisamos “dar conta de tudo” e isso é uma mentira cruel. Ninguém é obrigada a dar conta de nada e não somos fracas, ou menos competentes por estar cansadas, pedir ajuda, dizer não, ou exigir que outras pessoas exerçam efetivamente os seus papéis sejam profissionais ou familiares.       Mais de um ano depois do início dessa triste situação que estamos atravessando a passos lentos, sem guias e tendo na vacina uma luz ainda tímida e distante, ainda nos culpamos por não ter feito algo a mais quando fizemos o máximo que podíamos naquele momento, por não conseguirmos conscientizar os nossos alunos e a nossa comunidade acerca dos perigos do Covid-19<strong>, </strong>por não mobilizarmos os nossos colegas na construção de uma greve sanitária legitima e urgente, pois nos foi posto abusivamente que tínhamos que fazer tudo isso, já que reivindicamos direitos iguais aos dos homens. Cobranças essas impostas por uma sociedade que ainda não legitimou as nossas escolhas e que nos coloca em uma eterna posição subserviente alimentando nossas dúvidas e conflitos acerca de nós mesmas, ou seja, depois de tantas lutas ainda precisamos nos vencer diariamente para entender que acima de tudo somos humanas e, como tal, vamos falhar e está tudo bem, falhar!</p>



<p>Assim sendo, se faz urgente livrar-se de cada padrão que nos foi imposto seja ele o da: &#8220;mulher guerreira&#8221;, o da “melhor mãe do mundo”, o da “rainha do lar”, “da professora abnegada”, ou mesmo o da “profissional bem-sucedida”, uma vez que todos eles nos aprisionam em prol de um modelo inatingível e desumano e assim termino esta reflexão, repetindo Nina Simone, &#8220;Temos a permissão de ser exatamente quem somos”, nem mais e nem menos e isso inclui sermos humanas, falhas, sentirmos medo, não precisarmos dar conta de tudo e nem nos perdoar por nada disso, porque sabemos de antemão que essa culpa não é nossa.</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Cris Moreira – Coletivo Feminista Nísia Floresta</em></p>



<p></p>



<p>Leia também do Coletivo Nísia Floresta:</p>



<p><a href="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/a-criminalizacao-do-aborto/">A Criminalização do Aborto e a Vulnerabilidade da Mulher</a></p>



<p><a href="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/a-bruxa-e-o-feminismo/">A Bruxa e o Feminismo</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>A Criminalização do Aborto e a Vulnerabilidade da Mulher</title>
		<link>https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/a-criminalizacao-do-aborto/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Coletivo Feminista Nisia Floresta]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Feb 2021 11:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[aborto]]></category>
		<category><![CDATA[bruxas da quebrada]]></category>
		<category><![CDATA[coletivo feminista]]></category>
		<category><![CDATA[corpo livre]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[legalização do aborto]]></category>
		<category><![CDATA[relato de aborto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Falar de aborto é sempre difícil, mas é necessário: A Criminalização do Aborto e a Vulnerabilidade da Mulher.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>A Criminalização do Aborto e a Vulnerabilidade da Mulher</strong></p>



<p>Falar de aborto é sempre difícil, não é simples e muito menos confortável –&nbsp;&nbsp; de falar e ouvir – mas é necessário, porque é um fato: falando ou não, legalizado ou na marginalidade, as mulheres abortam!</p>



<p>É importante entendermos que aborto é a interrupção da gravidez, podendo ser precoce, quando ocorre antes da 13.ª semana de gravidez, ou tardio, entre a 13.ª e a 22.ª semana. E que existem diferentes tipos de abortos: o espontâneo, o acidental e o induzido.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A Criminalização do Aborto</strong></h2>



<p>Em nosso país, um aborto induzido é considerado um crime contra a vida; tal regimento é disciplinado entre os artigos 124 e 128 do Código Penal desde o ano de 1984.O aborto induzido só é legal em casos específicos, como estupro, risco de morte da mãe e se o feto for anencefálico. Ainda assim, mesmo sendo considerado legal, nestes casos citados, há vários entraves para ele ocorrer de fato: falta de informações para quem possui o direito, falta de acolhimento pela parte médica, falta de estruturas em alguns estados e cidades, além do preconceito e julgamento pela sociedade. Mas isso não muda o fato de que as mulheres continuam abortando.</p>



<p>De acordo com a Pesquisa Nacional de Aborto 2016<sup>(1),</sup> estima-se que no Brasil aproximadamente 20% das mulheres de até 40 anos já abortou. Mas a questão é, por que a campanha pela legalização, ou melhor, pela descriminalização, se as mulheres abortam mesmo sendo ilegal?</p>



<p> Respondemos esta pergunta quando fazemos outra,  a seguir.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Quem são as mulheres que abortam?</h2>



<p>Um estudo financiado pela FIOCRUZ <sup>(2)</sup>, indica que são as adolescentes as maiores vítimas do abortamento, pois são as que mais morrem devido ao aborto, feito sem estrutura sanitária, de forma marginalizada, largada à própria sorte. Além disto, o estudo faz um alerta importantíssimo para o debate, quando analisamos o recorte racial, percebemos que as mulheres negras, pardas e indígenas – 13% a 25% – são as que mais efetuam o aborto em relação a brancas, cujo índice fica em torno de 9%.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="900" height="600" src="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/02/aborto_1-1.jpg" alt="" class="wp-image-2872" srcset="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/02/aborto_1-1.jpg 900w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/02/aborto_1-1-300x200.jpg 300w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/02/aborto_1-1-768x512.jpg 768w" sizes="(max-width: 900px) 100vw, 900px" /></figure></div>



<p>Essas pesquisas, estudos e dados nos revelam que existe um perfil de mulheres que procuram o aborto e são vitimadas por esta legislação que as jogam na ilegalidade, e são as mais vulneráveis, pobres, negras, periféricas e muito jovens. Precisamos nos aprofundar mais neste perfil, mas acho que é necessário além de dados, tentarmos um exercício de empatia, nos colocar no lugar desta mulher que aborta na ilegalidade &#8211; isto é, se esta já não é a sua realidade. Convido vocês a abrirem o coração e a cabeça, para acompanharem este relato da Carolina <sup>(3):</sup></p>



<p>&#8220;<em>Aconteceu num relacionamento que era recente e eu estava iniciando num trabalho que era também um início de estabilidade financeira, materialização de uma luta pessoal. O parceiro queria o filho, mas quando soube que eu tinha uma opinião contrária, não ofereceu nenhum suporte: estar ao lado, compreender, ajuda financeira, nada. Aliás, financeiramente ele não tinha condições de sustentar os gastos de uma criança, mas nem chegou a cogitar isso. Muito provavelmente eu me tornaria mais uma “pãe” brasileira caso resolvesse seguir em frente com a gestação.</em></p>



<p><em>Me vi sozinha com a situação e ao mesmo tempo não me senti à vontade para contar para ninguém. Vergonha, culpa, medo, tanta coisa junta! A internet foi onde consegui encontrar uma ONG que providenciava medicação, orientação e alertas de possíveis riscos para um aborto seguro, recomendada por grupos pró-aborto que existiam entre as comunidades do antigo Orkut. Por ser um envio internacional, a medicação demoraria para chegar, e durante esse período de espera eu seria ainda por um tempo uma mulher grávida: inchaço e sensibilidade, muito sono, alguns enjoos. E a angústia e ansiedade pela chegada – ou não – dos remédios enquanto o tempo passava (não poderia ultrapassar doze semanas de gravidez).</em></p>



<p><em>O procedimento foi realizado na casa de uma amiga, seguindo as orientações. Dor, cólicas, sangramento intenso e a cabeça que fica atordoada de medo; medo de não dar certo, medo da ilegalidade, medo de ser dona do seu próprio corpo.</em></p>



<p><em>Nunca me arrependi. Por outro lado, não posso dizer que sempre foi confortável conviver com esse fato. O então pai contou a outras pessoas sobre o aborto com o intuito de que eu fosse julgada (o relacionamento acabou ainda durante os debates sobre o que iríamos fazer). A médica que me atendeu após o procedimento fez um inquérito como se precisasse provar que o aborto do qual tratava tinha sido mesmo espontâneo, talvez com o intuito de fazer eu me sentir uma criminosa (precisei tomar medicação posterior, mas não tive complicações). Psicologicamente tratei desse tema na terapia, anos depois (e acho importante reconhecer que este é um privilégio que a imensa maioria das mulheres que passam pelo mesmo processo não tem acesso). Hoje estou em paz com a decisão. O discurso conservador que iguala a mulher que aborta a mulher que assassina tem o poder de se enraizar na gente, por mais informação que a gente tenha. Acolhimento, escuta, escolha, são essas as coisas que a mulher com uma gestação indesejada precisa. O julgamento e a criminalização já vem desde o mito de Eva, mas a gente sabe a que interesses essas ações servem, mesmo em 2021</em>.&#8221; </p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="900" height="600" src="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/02/aborto_2-1.jpg" alt="" class="wp-image-2874" srcset="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/02/aborto_2-1.jpg 900w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/02/aborto_2-1-300x200.jpg 300w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/02/aborto_2-1-768x512.jpg 768w" sizes="(max-width: 900px) 100vw, 900px" /></figure></div>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Vulnerabilidade da Mulher</strong></h2>



<p>Carolina esteve numa situação que muitas outras mulheres já estiveram e que muitas outras estarão, a gravidez indesejada. As vozes que defendem a descriminalização do aborto, para que ele seja feito de forma segura e gratuita, fazem isso para dar uma chance de escolha segura para mulheres como a Carolina, e muito mais, para proteger muitas outras mulheres que não possuem a estrutura e os meios que lemos no relato, como vimos nos dados, as maiores vítimas de abortamento são mulheres pobres, sem acesso aos meios seguros para o procedimento.</p>



<p>Ninguém defende o aborto, esse é um erro de pensamento, ninguém quer passar por um trauma, como relatado, mas o que existe é uma defesa pela vida das mulheres, principalmente pelas vidas mais vulneráveis. Que diante de uma situação difícil, sem apoio, são tratadas como criminosas pelo Estado, por procurarem uma alternativa, que além dos efeitos físicos, deixa marcas emocionais. Já é fato que a proibição não impede que o aborto ocorra, então por que ainda relegar à insegurança, à criminalidade e à morte essas mulheres?</p>



<p>Para a Carolina e para todas as mulheres que passaram pelo aborto, deixo aqui minha solidariedade e minha luta, não desistiremos desta luta dentro do movimento feminista, lutaremos como nossas <em>Hermanas</em> argentinas para que todas nós tenhamos direito de decisão, e que seja uma decisão segura, gratuita e legal.</p>



<p>Para as Mulheres que estão passando por esta questão neste momento, deixo aqui duas indicações de grupos de apoio: <a href="https://womenhelp.org/pt/">Women Help Women</a> é uma organização ativista sem fins lucrativos cujo trabalho é a promoção de acesso ao aborto seguro.</p>



<p><a href="https://www.womenonweb.org/pt/i-need-an-abortion">Women on Web</a>, organização com o objetivo de compartilhar informações sobre o direito a acessar abortos seguros e sobre métodos contraceptivos.</p>



<blockquote class="wp-block-quote has-text-align-right is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>Tenho um grito entalado na garganta.<br>um grito denso, volumoso<br>Um grito ardido, de veias saltadas<br>E hoje ele vai sair.<br>-O corpo é meu!</p><cite>Jenyffer Nascimento, O Grito</cite></blockquote>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="568" height="458" src="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/02/aborto_3-1.jpg" alt="" class="wp-image-2876" srcset="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/02/aborto_3-1.jpg 568w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/02/aborto_3-1-300x242.jpg 300w" sizes="(max-width: 568px) 100vw, 568px" /></figure></div>



<p class="has-text-align-right"><em>Texto de Kamila Monteiro &#8211; Coletivo Feminista Nísia Floresta</em></p>



<p>(1) <a href="https://www.scielo.br/pdf/csc/v22n2/1413-8123-csc-22-02-0653.pdf">https://www.scielo.br/pdf/csc/v22n2/1413-8123-csc-22-02-0653.pdf</a></p>



<p>(2) <a href="https://www.scielo.br/pdf/csp/v36s1/1678-4464-csp-36-s1-e00188718.pdf">https://www.scielo.br/pdf/csp/v36s1/1678-4464-csp-36-s1-e00188718.pdf</a></p>



<p>(3) Nome fictício, para preservar a relatante.</p>



<p></p>



<p>Leia também:</p>



<p><a href="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/so-bem-acompanhada/">Só, bem acompanhada</a></p>



<p><a href="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/a-bruxa-e-o-feminismo/">A Bruxa e o Feminismo</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Só, bem acompanhada</title>
		<link>https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/so-bem-acompanhada/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Coletivo Feminista Nisia Floresta]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Nov 2020 11:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[bruxas da quebrada]]></category>
		<category><![CDATA[empoderamento feminino]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo interseccional]]></category>
		<category><![CDATA[solidão feminina]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Que minha solidão me sirva de companhia. Que eu tenha a coragem de me enfrentar. Só, bem acompanhada, reflexão trazida por Michele Santos.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Só, bem acompanhada</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>Que minha solidão me sirva de companhia. Que eu tenha a coragem de me enfrentar. Que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.</p><cite>Clarice Lispector</cite></blockquote>



<p>Muito antigamente, lá nos tempos da filosofia de Platão, um texto chamado “O banquete” ¹ trazia, nas palavras de Aristófanes, um dos convidados do “evento” altamente etílico, uma teoria/mitologia interessante, a qual afirmava que, a princípio, existiam seres completos, feitos ambos de vagina e pênis, os andróginos, tão autossuficientes,“ de uma força e de um vigor terríveis, e uma grande presunção eles tinham”, que despertaram a ira dos deuses, que, por conseguinte, resolveram cortá-los em dois, e desde então ambos vivem à procura de sua outra “metade”. Eis aí &#8211; o mito do amor romântico já era pauta de investigação em tempos muito remotos.</p>



<p>Tantos séculos se passaram e tal ideia ainda se constitui como verdade a muitas pessoas. A quem não acha sua “metade”, resta-lhe a solidão. E à mulher, foco deste texto, paira uma culpabilização e julgamento velados por uma demanda social não cumprida. Nada de novo no front. Desde Eva, a culpa sempre recai sobre a mulher. Através dos tempos, a solidão vem sendo encarada de modo distinto em cada período sócio-histórico. Já esteve presente, de maneira positiva, nos processos de conexão com o divino, ou de maneira punitiva nos processos de cárcere e tortura², e atualmente, diz-se ser um dos males da modernidade, marcada por individualismo e interações vazias. Seja autoimposta ou involuntária, a solidão, no senso comum, ainda é vista como digna de pena e fator de cobrança social.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="384" height="300" src="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/11/HopperAutomat.jpg" alt="" class="wp-image-2683" srcset="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/11/HopperAutomat.jpg 384w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/11/HopperAutomat-300x234.jpg 300w" sizes="(max-width: 384px) 100vw, 384px" /><figcaption>&#8220;Automat&#8221; de Edward Hopper (1927) &#8211; Por Fonte, Conteúdo restrito, https://pt.wikipedia.org/w/index.php?curid=3195300</figcaption></figure></div>



<p>Voltemos à mulher: o período da menarca marca, culturalmente, a transição da menina para a mulher (resguardando aqui as leis que definem, sabiamente, o estado de vulnerável no direito penal). Desde então, a ex-menina é bombardeada por todos os lados para, assim como no banquete de Platão, buscar sua “metade”.</p>



<p>Não apenas, ela também precisa estar sempre bela, de acordo com os padrões estéticos em voga, ser “educada” (sinônimo para submissa), desejar o casamento, e então os filhos, e assim, cumprir o seu dito papel social a ela reservado, determinantes naturalizados que ainda persistem, apesar de estarmos reconhecidamente na 4ª onda feminista da história social.</p>



<p>Se a mulher é infeliz no casamento, se de fato quis ter os filhos que gerou, se escolheu de verdade seus caminhos ao longo da vida – ou foi moldando suas vontades para atender demandas que não as suas – a mesma sociedade que a cobrou tais cumprimentos para estar de acordo com o ideário social da mulher, decerto não estará presente para acolher essa mulher que agora é amargurada com sua sina pessoal.</p>



<p>E pior, muitas vezes, paradoxalmente, permanece solitária com muitas pessoas ao redor, em ordem de justificar o peso social da constituição familiar imposto pela sociedade (preciso escrever PATRIARCAL? Creio que não). Por outro lado, se esta mulher decide por bem permanecer solteira, e, pior, se virar bem com sua solidão, é certo que ela vai ser considerada por muitas pessoas como uma “freak”, a esquisita, ou em termos mais adaptados a nossos tempos internéticos, “a louca das plantas”, “a louca dos gatos”, e por aí afora. Já aos homens em igual condição, geralmente são ditos como “alma livre”, “garanhão” e outros tantos vernáculos – todos de cunho positivo.</p>



<p>Solidão não é sobre estar desacompanhado, isto é fato. Esse vazio dolorido que é também humano, foi e continuará sendo tema de pesquisas que a psicologia, entre outras ciências, certamente seguirão estudando, ainda mais quando a solidão dos tempos individualistas e de relações líquidas no qual vivemos parece apontar o aumento de depressão e suicídio. O impacto negativo da solidão sobre a saúde é real. O Reino Unido, inclusive, criou um “Ministério da solidão” em 2018<sup>4</sup>, para auxiliar idosos carentes de interações sociais.</p>



<p>Somos seres coletivos. Propomos aqui um olhar adentro: você já sentiu a pontada fina que a solidão dá? À parte a cobrança social, você, mulher que entendeu o que é solitude, ou seja, aprender a gostar de sua própria companhia, e assim aprendeu a se virar consigo mesma, sai e viaja em sua própria companhia, paga suas próprias contas, troca resistência de chuveiro, botijão de gás, pneu, maneja furadeira de impacto (ou não), “dirijo meu carro, tomo meu pileque, e ainda tenho tempo pra cantar&#8230;” (saudosa Cássia!), você deve muitas vezes entender o que a solidão faz na gente.</p>



<p>Um troço agudo que as plantas, os gatos, os livros, o vinho, a Netflix, mesmo os amigos não dão conta de preencher. E às vezes dá até vontade de se render às ideias de metade propostas por Aristófanes, mas se não for pra ser companheirismo, menos pior deixar-se doer. Viver é escolha e sorte, e, óbvio, as leis do desejo, neste texto, enxergam todos os amores possíveis independente de orientação, gênero ou identificação sexual. É o cobertor de orelha, é a conversa solta, é o socorro quando a gente tá no chão, é o outro (ou outra, ou outre) na partilha dos dias, é o carnal para além da cama.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="699" src="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/11/hopper.morning-sun-1024x699.jpg" alt="" class="wp-image-2684" srcset="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/11/hopper.morning-sun-1024x699.jpg 1024w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/11/hopper.morning-sun-300x205.jpg 300w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/11/hopper.morning-sun-768x524.jpg 768w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/11/hopper.morning-sun.jpg 1118w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption>&#8220;Sol da manhã&#8221; de Edward Hopper (1952) &#8211; Fonte: http://www.ibiblio.org/wm/paint/auth/hopper/interior/hopper.morning-sun.jpg</figcaption></figure></div>



<p>Em adendos ainda mais pormenores, há solidões que a sociedade ignora: a <a href="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/sagrado-feminino-para-quem/">solidão da mulher preta</a> é uma delas. Ao contrário do que as vozes do “racismo reverso” (que não existe, alou), costumam pregar, nada tem a ver com a dificuldade em se achar uma companhia.</p>



<p>Herança da colonização, quando as mulheres escravizadas eram boas para encontros furtivos, ou seja, para o ato sexual, e, consequentemente, filhos renegados – uma pesquisa da Fiocruz³ acerca da ancestralidade genética dos brasileiros revela que a herança materna dos brasileiros é de 36% de nativas africanas (e 34% de nativas originárias) contra 75% por cento de genes europeus – fez a conta? Ou seja, essa herança dá conta de que, não só em nossa genética ancestral, mas ainda hoje, a mulher negra é muitas vezes a mulher ideal quando em quatro paredes, mas não é objeto de desejo que se exiba à família, aos amigos, em redes sociais, à vida, com o orgulho que um par merece, de mãos dadas no parque numa tarde de domingo.</p>



<p>E aqui, importante frisar que não é uma realidade reservada aos relacionamentos não oficializados. Muitas vezes, é a mulher-mãe-solo que resta com as responsabilidades da criação dos filhos, e noutras, casamentos que se regram também por esta régua, a da mulher “escondida” dos olhos sociais, que por não existir, não tem igual valor.&nbsp;</p>



<p>Outra solidão menos mencionada é a da mulher idosa. Muitas delas, mães, que muitas vezes acreditaram no mito/confrontamento social “Como assim, não vai ter filhos? Vai morrer sozinha?” – e muitas delas, sim, morrem sozinhas, abandonadas. Algumas com muitos filhos, inclusive. Findam sendo consideradas “peso”, jogadas pra lá e pra cá entre a prole. Nos países ocidentais, que não possuem a tradição de devoção às pessoas de idade avançada, o cenário só piora. E toda uma vida, que muitas vezes foi de devoção aos filhos, se torna um pesadelo do não-cumprimento da promessa social de que filhos equivalem a cuidados garantidos no futuro. E o que fazer com a dor da não completude, mesmo entendendo que somos inteiras do jeito que somos? Não há lições prontas neste texto, amadas bruxas, o que propomos aqui é diálogo. O que há são caminhos possíveis: cultive-se, a princípio – e isso não tem a ver com enquadrar-se dentro de padrões, sejam eles estéticos e/ou comportamentais. Cultive paixões: quer seja a música, a arte, o artesanato, a escrita, a leitura, os estudos, as causas sociais e políticas, a espiritualidade, a cozinha, os clichês pets &amp; plantas. Busque por coletivas fêmeas de acolhida e troca, e para quando doer, pavimente caminhos de cura, terapia, meditação, autocuidado, espiritualidade. Nem sempre dá certo. Mas só quem tenta sabe se vai dar&#8230;certo mesmo é que a gente sai sempre maior quando (se) enfrenta. Em frente. Sempre.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“No estoy sola, estoy conmigo.”  (Não estou sozinha, estou comigo)</p><cite>Ana Tijoux</cite></blockquote>



<p class="has-text-align-right"><em>Michele Santos, colaboração: Juliana Félix<br>Coletivo Feminista Nísia Floresta</em></p>



<p></p>



<p><strong>Referências:</strong></p>



<p class="has-text-align-left">(1)PLATÃO. “O banquete”. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000048.pdf</p>



<p>(2)STORR, Anthony. “Solidão: a conexão com o eu”. Ed. Benvirá.</p>



<p>(3)“Estudo com 1200 genomas mapeia diversidade da população brasileira” . Folha de São Paulo. Disponível em: <a href="https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2020/09/estudo-com-1200-genomas-mapeia-diversidade-da-populacao-brasileira.shtml?origin=folha">https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2020/09/estudo-com-1200-genomas-mapeia-diversidade-da-populacao-brasileira.shtml?origin=folha</a></p>



<p>(4)“Reino Unido cria secretaria de Estado contra “epidemia” de solidão.” El País. Disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/17/internacional/1516217665_881811.html</p>



<p>Sugerido: GONÇALVES, ELIANE. “Nem só nem mal acompanhada: reinterpretando a &#8220;solidão&#8221; das &#8220;solteiras&#8221; na contemporaneidade”. Disponível em: <a href="https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0104-71832009000200009">https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0104-71832009000200009</a></p>
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		<title>A Bruxa e o Feminismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Coletivo Feminista Nisia Floresta]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Sep 2020 11:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[Wicca]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O feminismo busca resgatar a bruxa do limbo histórico, quebrando os estereótipos que resistem ao longo dos séculos.</p>
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<p><strong>A Bruxa e o Feminismo</strong></p>



<p>É fato conhecido que muitas vertentes feministas, <strong>assumem a figura da bruxa como uma de suas representações</strong>. Não é difícil corrermos nossa timeline e nos depararmos com a frase “Somos as netas das bruxas que vocês não queimaram”, frases como esta, são bastante conhecidas, difundidas e até estilizadas em camisetas entre feministas, mas como e quando essa associação começou?</p>



<p>Podemos responder essa questão numa <strong>perspectiva histórica</strong>. Analisando as transformações históricas pelas quais a imagem da bruxa passou ao longo dos anos.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Fenômeno da Caça às Bruxas</h2>



<p>Por séculos a ideia de bruxaria (apesar de Harry Potter) é associada a <a href="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/sob-dominio-da-sombra-mulheres-bruxas-ou-mas/">a<strong>lgo maligno, sendo a mulher a grande imagem da bruxa</strong></a>. Isso está relacionado ao fenômeno histórico conhecido como caça às bruxas ocorrida principalmente na Europa e nas Américas (período colonial) entre os séculos XV e XVII. Durante esse período houve uma massiva campanha judicial realizada pela igreja (católica e protestante) instigado pela classe dominante e permitido pelo Estado, contra a população pobre e seu estilo de vida, e coube às mulheres serem taxadas de bruxas. Esse fenômeno, estudado pelo viés feminista, identificou que esse processo ajudou a <strong>construir no imaginário social o estereótipo da bruxa &#8211;&nbsp; velha, decrépita, feia, malvada &#8211; associado ao demônio, maligno, perigoso</strong>.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="625" height="426" src="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/09/bruxaefeminismo1-1.png" alt="" class="wp-image-2581" srcset="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/09/bruxaefeminismo1-1.png 625w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/09/bruxaefeminismo1-1-300x204.png 300w" sizes="(max-width: 625px) 100vw, 625px" /></figure></div>



<p>Parte desse imaginário se deve a um livro com grande circulação na Europa, nos séculos em que a caça às bruxas estava em alta, chamado de <a href="https://www2.unifap.br/marcospaulo/files/2013/05/malleus-maleficarum-portugues.pdf"><em>Malleus Maleficarum</em></a><em> </em>(traduzido para o português como “O Martelo das Feiticeiras”). Escrito por homens da igreja (dois monges beneditinos, Kramer e Sprenger), funcionou como <strong>manual para “identificar bruxas”</strong>. Apesar dos absurdos contidos no livro, na prática ele reforçou a perseguição às mulheres, especialmente as curandeiras e parteiras, facilmente associadas a mentalidade sobrenatural da época. A obra também enfatizou que mulheres, por sua “natureza”, eram mais propícias a serem bruxas e separou as boas (religiosas, santas, virgens) das más (promíscuas e malignas) além de ser o instrumento jurídico que l<strong>egalizou os interrogatórios (torturas) dos tribunais da inquisição</strong>.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando analisamos o contexto histórico da caças às bruxas, a transição da Baixa Idade Média para o Período Moderno, percebemos que o imaginário da bruxa má, nem sempre existiu, ele foi construído, com especificidades nos países em que houve essa perseguição, sendo importante pontuar que fez parte de um amplo processo de transformações na Europa e Américas. Essas mudanças de ordem econômica, social, cultural, religiosa e científica causaram rupturas em modos de vida de populações pobres, rurais, com fortes vínculos comunitários e de outra relação com a natureza, ou seja, representavam empecilhos para as mudanças que ocorriam e foram de <strong>extrema violência para as mulheres</strong>.</p>



<p>Nas Américas o processo foi <strong>mais terrível,</strong> pois a colonização, associado a essas mudanças e praticada por uma mentalidade europeia de superioridade cultural provocaram verdadeiros epistemicídios e etnocídios (destruição de saberes e destruição dos vínculos com o território) dos povos originários/indígenas. Pouco foi divulgado, em comparação com a Europa, sobre a perseguição às bruxas na Américas, em especial o Brasil, e caberia um outro texto sobre esse tema.</p>



<p>As mulheres julgadas como bruxas, <strong>eram parteiras, curandeiras, entendiam de plantas medicinais, procuradas e estimadas dentro de suas comunidades, possuíam poder social</strong>, já que eram a única possibilidade de atendimento médico dentro de uma comunidade pobre. Essas mulheres aprendiam e ensinavam o ofício umas com as outras, entre as gerações. Pelo tribunal da inquisição foram <strong>caçadas, presas, estranguladas, torturadas, sofriam surras violentas, decapitações de seios, estupros com objetos cortantes e por fim, eram queimadas em espaços públicos</strong>. Em alguns países, como Alemanha e França, usavam madeira verde nas fogueiras, para prorrogar o sofrimento dessas mulheres, na Itália e Espanha, as mulheres eram <strong>sempre queimadas vivas</strong>.</p>



<p>Essa imagem da <strong>bruxa maligna continua representado no cinema, literatura, e reforçados no imaginário coletivo, com poucas exceções</strong>. Hoje, podemos chamar essa “demonização” da mulher de misoginia, que é o ódio, desprezo e preconceito contra mulheres e meninas.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A Bruxa Feminista</h2>



<p>A partir do momento que a questão do gênero foi introduzida em pesquisas acadêmicas entre as década de 1970 e 1980, um <strong>outro olhar foi lançado para os estudos sobre as bruxas</strong>, as fontes documentais desse período ( processos inquisitoriais, tratados) foram revisitadas à luz de novas perguntas, fomentando teorias feministas. Por outro lado, nessas décadas <strong>muitos movimentos feministas ocuparam as ruas com reivindicações diversas</strong> e nesse momento houve uma apropriação da bruxa do passado pelos movimentos. Se essa apropriação da figura histórica da bruxa foi espontânea ou fruto das teorias feministas, não cabe ser discutido neste breve ensaio.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="576" height="616" src="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/09/bruxaefeminismo2.png" alt="" class="wp-image-2582" srcset="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/09/bruxaefeminismo2.png 576w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/09/bruxaefeminismo2-281x300.png 281w" sizes="(max-width: 576px) 100vw, 576px" /></figure></div>



<p>Diante de tudo que sabemos sobre o período inquisidor, podemos afirmar que houve um verdadeiro <strong>assassinato do gênero feminino, por manifestar seus conhecimentos as mulheres foram perseguidas, torturadas e mortas, como isso poderia ficar de fora do feminismo</strong>?</p>



<p>O <strong>feminismo busca resgatar a bruxa do limbo histórico, quebrando os estereótipos que resistem</strong>, trazendo à tona esta mulher, que detinha o poder, que cuidava de sua comunidade, que possuía conhecimentos sobre as plantas e sobre seu corpo, que resistia ao domínio da igreja e que foi caçada, violentada e morta. Infelizmente a misoginia e o medo do poder da mulher permanecem e, ainda hoje, somos julgadas, perseguidas e condenadas socialmente, muitas vezes assassinadas, pelo único fato de sermos mulheres, <strong>será que não somos todas bruxas</strong>?</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Júlia Amabile e Kamila Monteiro </em></p>



<p class="has-text-align-right"><em>Coletivo Feminista Nísia Floresta</em></p>



<p>Referências:</p>



<p>Calibã e a Bruxa. Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva. Silvia Federeci. Tradução &#8211; Coletivo Sycorax.</p>



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<p></p>



<p>Leia Também:</p>



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