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	<title>Arquivos feminismo interseccional - Respeita as Bruxas da Quebrada</title>
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	<description>Wicca, Bruxaria, Sagrado Feminino e Paganismo</description>
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	<title>Arquivos feminismo interseccional - Respeita as Bruxas da Quebrada</title>
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		<title>Ser professora na pandemia: sobrecargas em meio ao caos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Coletivo Feminista Nisia Floresta]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Apr 2021 09:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[empoderamento feminino]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo interseccional]]></category>
		<category><![CDATA[feridas emocionais]]></category>
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		<category><![CDATA[trabalho do professor]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ser professora na pandemia: sobrecargas em meio ao caos... questões gerais do que é ser “professora”, no Brasil, durante o período do COVID-19.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Ser professora</strong> <strong>na pandemia: sobrecargas em meio ao caos</strong>.</p>



<p>A pandemia de COVID 19, perdura por mais de 1 ano, e embora não suportemos mais falar sobre ela, nesse momento é inevitável, principalmente, para que possamos refletir um pouco a respeito de algumas questões gerais do que é ser “professora”, no Brasil, durante o terrível momento histórico que estamos atravessando.</p>



<p>Antes de desenvolver de fato essa análise, precisaremos fazer alguns apontamentos acerca da escrita desse texto. As linhas que vocês lerão a partir de agora partem dos pressupostos, reflexões, questionamentos, aprendizados, vivências e dores de uma <a href="https://brasilescola.uol.com.br/sexualidade/cisgenero-transgenero.htm">mulher cisgênera</a>, branca, feminista interseccional, professora de esquerda, paulistana e periférica, ou seja, assim como todos os discursos são ideológicos, esse também será. Sendo pautado pelos marcadores sociais honestamente sinalizados acima.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Considerações extremamente relevantes</h2>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="568" height="379" src="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/04/ser_professora_na_pandemia_1-1.png" alt="" class="wp-image-2927" srcset="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/04/ser_professora_na_pandemia_1-1.png 568w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/04/ser_professora_na_pandemia_1-1-300x200.png 300w" sizes="(max-width: 568px) 100vw, 568px" /></figure></div>



<p>Outro ponto importante a ser desmistificado para o entendimento dessa escrita é a incômoda e recorrente fala do “dom” de ser professora e do trabalhar “por amor”. Quase nunca escutamos essas colocações quando estamos falando em qualquer outra profissão, entretanto quando lançamos o nosso olhar para a educação e, sobretudo, para as educadoras, elas ganham falaciosos ares de elogio, todavia, não o são e é imprescindível entender essas falas como mais uma das opressões que nos atingem diretamente.</p>



<p>O magistério, como muitas outras profissões, requer horas de estudo para que possamos desenvolvê-lo, isto é, aperfeiçoar metodologias e didáticas que possam contribuir de forma efetiva com o aprendizado de nossos alunos, em outras palavras, estudamos de forma ininterrupta em prol de técnicas para realizar o nosso ofício da melhor maneira possível e isso não é nenhum dom, e sim: trabalho duro!</p>



<p>Da mesma forma, trabalhamos para receber os nossos salários e, também, lutamos para melhorar as nossas condições salariais, como qualquer outro trabalhador que entende a urgência da luta de classes dentro do sistema capitalista, ou seja, não trabalhamos “por amor” e isso não tira a importância de nosso papel na sociedade e tampouco o valor que damos à educação. Assim, somente gostaríamos de reiterar que comentários aparentemente inocentes como os supracitados apenas servem para minimizar a nossa dedicação e a nossa competência profissional.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Professora</strong> <strong>na pandemia</strong>: Ferida latente</h2>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" width="568" height="379" src="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/04/ser_professora_na_pandemia_2-1.png" alt="" class="wp-image-2928" srcset="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/04/ser_professora_na_pandemia_2-1.png 568w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/04/ser_professora_na_pandemia_2-1-300x200.png 300w" sizes="(max-width: 568px) 100vw, 568px" /></figure></div>



<p>Após essas importantes considerações, vamos de fato ao assunto o qual pretendemos debater aqui. Há mais de doze meses, nossas rotinas mudaram e o ensino presencial foi aos poucos sendo substituído de forma infelizmente necessária, nesse momento, pelo ensino à distância. Por conta disso, tivemos que reaprender a ser professoras, nos desgastando mais e mais a cada dia, e quase sempre acreditamos que apesar de tudo, não estávamos fazendo o suficiente.</p>



<p>Nesse sentido, em meio ao caos de estarmos vivendo uma situação sem precedentes de forma extremamente atribulada, solitária e incerta, estávamos, também, sendo medidas o tempo todo por uma “régua” empunhada por um sistema falho que deposita todos os problemas de uma sociedade imensuravelmente desigual na escola e leva a população a acreditar que de nós virá a solução, cerceando de forma simbólica as nossas liberdades individuais. Afinal de contas, nada mais normal do quer ter medo diante do desconhecido, principalmente, quando esse desconhecido é um vírus letal, não é mesmo? Porém, não nos permitem nem mesmo o medo.</p>



<p>E esse processo, no mínimo violento, foi alimentado de forma perversa pela imprensa, que muitas vezes apresenta alguma tentativa meio que desesperada de uma educadora, para atingir os seus alunos, como um exemplo a ser seguido.  Eximindo assim o poder público de suas obrigações e exigindo cada vez mais de nós, peças menores no tabuleiro social.</p>



<p>O resultado dessas violências foram o aumento do estresse, crises de ansiedade/pânico, estima por si mesmas, caindo a níveis baixíssimos, sobrecarga de trabalho, queda vertiginosa em relação a qualidade de vida, desentendimentos com as outras pessoas com as quais dividimos a casa, diminuição da conexão com cônjuges, filhos e outros familiares, falta de esperança/perspectivas em relação ao futuro, culpa, entre outras adversidades e tudo isso gerou profundas feridas em nossa saúde emocional, feridas essas que demorarão muito a cicatrizar.</p>



<p>Lógico que entendemos o privilégio de poder exercer a nossa função por meio do <em>home office</em> e até mesmo o direito de greve, em situações extremas. Assim como, entendemos que estão sim, havendo sérios prejuízos pedagógicos e emocionais aos nossos alunos nesse momento. Prejuízos emocionais que se estendem a todas nós, também. Todavia, nenhum prejuízo pode ser maior do que a vida do indivíduo e, portanto, a máxima “ano letivo se recupera, vidas não”, é uma verdade inegável.</p>



<p>Outra verdade incontestável é que a educação é essencial. Sim, concordamos plenamente com essa fala e consideramos que ela deveria ter sido vociferada de forma repetitiva muito antes da pandemia, muito antes de que o estar em sala de aula representasse também uma ameaça as nossas vidas, as vidas de nossos alunos e de seus e de nossos familiares. Por conta disso, professores fazem greve não apenas por salários ou pela própria vida, como está acontecendo hoje na cidade de São Paulo, mas fazem greve pedindo melhores condições de trabalho, lutam para que haja sim, merenda de qualidade, acesso à tecnologia e até segurança nas escolas e em seu entorno, isto é, professores não são “vagabundos” que estão “recebendo sem trabalhar”, muito pelo contrário. Praticamente dobraram a sua jornada durante o período de ensino remoto, muitas vezes de forma altruísta, atendendo os seus alunos: fora do seu horário de trabalho e até mesmo aos fins de semana, por conta das dificuldades deles em conseguir acesso à internet. E mesmo no atual ensino hibrido, em que precisamos nos revezar entre a sala de aula e as aulas virtuais, as demandas não diminuíram, muito pelo contrário, só fazem aumentar. Lembrando que todas as decisões que envolvem a educação são tomadas de cima para baixo, ou seja, a nossa opinião e as nossas experiências não foram levadas em consideração nenhuma vez.</p>



<p>Vale lembrar que quando falamos em “professoras”, o nível de exigências se torna muito maior, uma vez que muitas de nós também somos mães e precisamos auxiliar os nossos próprios filhos no ensino à distância e assim como a educação dos filhos, o trabalho doméstico e o cuidado com pais e avós são na maioria das vezes incutidos compulsoriamente a nós, mulheres.  Desse modo, somos obrigadas a seguir em frente como se fossemos super-heroínas do mundo Marvel e não seres humanos desgovernados, no sentido mais lato da palavra. Afinal, a máquina não pode parar!</p>



<h2 class="wp-block-heading">Libertando-se de culpas ilusórias</h2>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" width="568" height="379" src="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/04/ser_professora_na_pandemia_3-1.png" alt="" class="wp-image-2931" srcset="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/04/ser_professora_na_pandemia_3-1.png 568w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2021/04/ser_professora_na_pandemia_3-1-300x200.png 300w" sizes="(max-width: 568px) 100vw, 568px" /></figure></div>



<p>Consequentemente, vimos a emancipação feminina sendo resignificada de forma esdrúxula, como mais uma maneira de nos oprimir, e nos levando a acreditar que precisamos “dar conta de tudo” e isso é uma mentira cruel. Ninguém é obrigada a dar conta de nada e não somos fracas, ou menos competentes por estar cansadas, pedir ajuda, dizer não, ou exigir que outras pessoas exerçam efetivamente os seus papéis sejam profissionais ou familiares.       Mais de um ano depois do início dessa triste situação que estamos atravessando a passos lentos, sem guias e tendo na vacina uma luz ainda tímida e distante, ainda nos culpamos por não ter feito algo a mais quando fizemos o máximo que podíamos naquele momento, por não conseguirmos conscientizar os nossos alunos e a nossa comunidade acerca dos perigos do Covid-19<strong>, </strong>por não mobilizarmos os nossos colegas na construção de uma greve sanitária legitima e urgente, pois nos foi posto abusivamente que tínhamos que fazer tudo isso, já que reivindicamos direitos iguais aos dos homens. Cobranças essas impostas por uma sociedade que ainda não legitimou as nossas escolhas e que nos coloca em uma eterna posição subserviente alimentando nossas dúvidas e conflitos acerca de nós mesmas, ou seja, depois de tantas lutas ainda precisamos nos vencer diariamente para entender que acima de tudo somos humanas e, como tal, vamos falhar e está tudo bem, falhar!</p>



<p>Assim sendo, se faz urgente livrar-se de cada padrão que nos foi imposto seja ele o da: &#8220;mulher guerreira&#8221;, o da “melhor mãe do mundo”, o da “rainha do lar”, “da professora abnegada”, ou mesmo o da “profissional bem-sucedida”, uma vez que todos eles nos aprisionam em prol de um modelo inatingível e desumano e assim termino esta reflexão, repetindo Nina Simone, &#8220;Temos a permissão de ser exatamente quem somos”, nem mais e nem menos e isso inclui sermos humanas, falhas, sentirmos medo, não precisarmos dar conta de tudo e nem nos perdoar por nada disso, porque sabemos de antemão que essa culpa não é nossa.</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Cris Moreira – Coletivo Feminista Nísia Floresta</em></p>



<p></p>



<p>Leia também do Coletivo Nísia Floresta:</p>



<p><a href="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/a-criminalizacao-do-aborto/">A Criminalização do Aborto e a Vulnerabilidade da Mulher</a></p>



<p><a href="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/a-bruxa-e-o-feminismo/">A Bruxa e o Feminismo</a></p>
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		<title>Só, bem acompanhada</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Coletivo Feminista Nisia Floresta]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Nov 2020 11:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[bruxas da quebrada]]></category>
		<category><![CDATA[empoderamento feminino]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo interseccional]]></category>
		<category><![CDATA[solidão feminina]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Que minha solidão me sirva de companhia. Que eu tenha a coragem de me enfrentar. Só, bem acompanhada, reflexão trazida por Michele Santos.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Só, bem acompanhada</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>Que minha solidão me sirva de companhia. Que eu tenha a coragem de me enfrentar. Que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.</p><cite>Clarice Lispector</cite></blockquote>



<p>Muito antigamente, lá nos tempos da filosofia de Platão, um texto chamado “O banquete” ¹ trazia, nas palavras de Aristófanes, um dos convidados do “evento” altamente etílico, uma teoria/mitologia interessante, a qual afirmava que, a princípio, existiam seres completos, feitos ambos de vagina e pênis, os andróginos, tão autossuficientes,“ de uma força e de um vigor terríveis, e uma grande presunção eles tinham”, que despertaram a ira dos deuses, que, por conseguinte, resolveram cortá-los em dois, e desde então ambos vivem à procura de sua outra “metade”. Eis aí &#8211; o mito do amor romântico já era pauta de investigação em tempos muito remotos.</p>



<p>Tantos séculos se passaram e tal ideia ainda se constitui como verdade a muitas pessoas. A quem não acha sua “metade”, resta-lhe a solidão. E à mulher, foco deste texto, paira uma culpabilização e julgamento velados por uma demanda social não cumprida. Nada de novo no front. Desde Eva, a culpa sempre recai sobre a mulher. Através dos tempos, a solidão vem sendo encarada de modo distinto em cada período sócio-histórico. Já esteve presente, de maneira positiva, nos processos de conexão com o divino, ou de maneira punitiva nos processos de cárcere e tortura², e atualmente, diz-se ser um dos males da modernidade, marcada por individualismo e interações vazias. Seja autoimposta ou involuntária, a solidão, no senso comum, ainda é vista como digna de pena e fator de cobrança social.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="384" height="300" src="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/11/HopperAutomat.jpg" alt="" class="wp-image-2683" srcset="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/11/HopperAutomat.jpg 384w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/11/HopperAutomat-300x234.jpg 300w" sizes="(max-width: 384px) 100vw, 384px" /><figcaption>&#8220;Automat&#8221; de Edward Hopper (1927) &#8211; Por Fonte, Conteúdo restrito, https://pt.wikipedia.org/w/index.php?curid=3195300</figcaption></figure></div>



<p>Voltemos à mulher: o período da menarca marca, culturalmente, a transição da menina para a mulher (resguardando aqui as leis que definem, sabiamente, o estado de vulnerável no direito penal). Desde então, a ex-menina é bombardeada por todos os lados para, assim como no banquete de Platão, buscar sua “metade”.</p>



<p>Não apenas, ela também precisa estar sempre bela, de acordo com os padrões estéticos em voga, ser “educada” (sinônimo para submissa), desejar o casamento, e então os filhos, e assim, cumprir o seu dito papel social a ela reservado, determinantes naturalizados que ainda persistem, apesar de estarmos reconhecidamente na 4ª onda feminista da história social.</p>



<p>Se a mulher é infeliz no casamento, se de fato quis ter os filhos que gerou, se escolheu de verdade seus caminhos ao longo da vida – ou foi moldando suas vontades para atender demandas que não as suas – a mesma sociedade que a cobrou tais cumprimentos para estar de acordo com o ideário social da mulher, decerto não estará presente para acolher essa mulher que agora é amargurada com sua sina pessoal.</p>



<p>E pior, muitas vezes, paradoxalmente, permanece solitária com muitas pessoas ao redor, em ordem de justificar o peso social da constituição familiar imposto pela sociedade (preciso escrever PATRIARCAL? Creio que não). Por outro lado, se esta mulher decide por bem permanecer solteira, e, pior, se virar bem com sua solidão, é certo que ela vai ser considerada por muitas pessoas como uma “freak”, a esquisita, ou em termos mais adaptados a nossos tempos internéticos, “a louca das plantas”, “a louca dos gatos”, e por aí afora. Já aos homens em igual condição, geralmente são ditos como “alma livre”, “garanhão” e outros tantos vernáculos – todos de cunho positivo.</p>



<p>Solidão não é sobre estar desacompanhado, isto é fato. Esse vazio dolorido que é também humano, foi e continuará sendo tema de pesquisas que a psicologia, entre outras ciências, certamente seguirão estudando, ainda mais quando a solidão dos tempos individualistas e de relações líquidas no qual vivemos parece apontar o aumento de depressão e suicídio. O impacto negativo da solidão sobre a saúde é real. O Reino Unido, inclusive, criou um “Ministério da solidão” em 2018<sup>4</sup>, para auxiliar idosos carentes de interações sociais.</p>



<p>Somos seres coletivos. Propomos aqui um olhar adentro: você já sentiu a pontada fina que a solidão dá? À parte a cobrança social, você, mulher que entendeu o que é solitude, ou seja, aprender a gostar de sua própria companhia, e assim aprendeu a se virar consigo mesma, sai e viaja em sua própria companhia, paga suas próprias contas, troca resistência de chuveiro, botijão de gás, pneu, maneja furadeira de impacto (ou não), “dirijo meu carro, tomo meu pileque, e ainda tenho tempo pra cantar&#8230;” (saudosa Cássia!), você deve muitas vezes entender o que a solidão faz na gente.</p>



<p>Um troço agudo que as plantas, os gatos, os livros, o vinho, a Netflix, mesmo os amigos não dão conta de preencher. E às vezes dá até vontade de se render às ideias de metade propostas por Aristófanes, mas se não for pra ser companheirismo, menos pior deixar-se doer. Viver é escolha e sorte, e, óbvio, as leis do desejo, neste texto, enxergam todos os amores possíveis independente de orientação, gênero ou identificação sexual. É o cobertor de orelha, é a conversa solta, é o socorro quando a gente tá no chão, é o outro (ou outra, ou outre) na partilha dos dias, é o carnal para além da cama.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="699" src="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/11/hopper.morning-sun-1024x699.jpg" alt="" class="wp-image-2684" srcset="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/11/hopper.morning-sun-1024x699.jpg 1024w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/11/hopper.morning-sun-300x205.jpg 300w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/11/hopper.morning-sun-768x524.jpg 768w, https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/wp-content/uploads/2020/11/hopper.morning-sun.jpg 1118w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption>&#8220;Sol da manhã&#8221; de Edward Hopper (1952) &#8211; Fonte: http://www.ibiblio.org/wm/paint/auth/hopper/interior/hopper.morning-sun.jpg</figcaption></figure></div>



<p>Em adendos ainda mais pormenores, há solidões que a sociedade ignora: a <a href="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/sagrado-feminino-para-quem/">solidão da mulher preta</a> é uma delas. Ao contrário do que as vozes do “racismo reverso” (que não existe, alou), costumam pregar, nada tem a ver com a dificuldade em se achar uma companhia.</p>



<p>Herança da colonização, quando as mulheres escravizadas eram boas para encontros furtivos, ou seja, para o ato sexual, e, consequentemente, filhos renegados – uma pesquisa da Fiocruz³ acerca da ancestralidade genética dos brasileiros revela que a herança materna dos brasileiros é de 36% de nativas africanas (e 34% de nativas originárias) contra 75% por cento de genes europeus – fez a conta? Ou seja, essa herança dá conta de que, não só em nossa genética ancestral, mas ainda hoje, a mulher negra é muitas vezes a mulher ideal quando em quatro paredes, mas não é objeto de desejo que se exiba à família, aos amigos, em redes sociais, à vida, com o orgulho que um par merece, de mãos dadas no parque numa tarde de domingo.</p>



<p>E aqui, importante frisar que não é uma realidade reservada aos relacionamentos não oficializados. Muitas vezes, é a mulher-mãe-solo que resta com as responsabilidades da criação dos filhos, e noutras, casamentos que se regram também por esta régua, a da mulher “escondida” dos olhos sociais, que por não existir, não tem igual valor.&nbsp;</p>



<p>Outra solidão menos mencionada é a da mulher idosa. Muitas delas, mães, que muitas vezes acreditaram no mito/confrontamento social “Como assim, não vai ter filhos? Vai morrer sozinha?” – e muitas delas, sim, morrem sozinhas, abandonadas. Algumas com muitos filhos, inclusive. Findam sendo consideradas “peso”, jogadas pra lá e pra cá entre a prole. Nos países ocidentais, que não possuem a tradição de devoção às pessoas de idade avançada, o cenário só piora. E toda uma vida, que muitas vezes foi de devoção aos filhos, se torna um pesadelo do não-cumprimento da promessa social de que filhos equivalem a cuidados garantidos no futuro. E o que fazer com a dor da não completude, mesmo entendendo que somos inteiras do jeito que somos? Não há lições prontas neste texto, amadas bruxas, o que propomos aqui é diálogo. O que há são caminhos possíveis: cultive-se, a princípio – e isso não tem a ver com enquadrar-se dentro de padrões, sejam eles estéticos e/ou comportamentais. Cultive paixões: quer seja a música, a arte, o artesanato, a escrita, a leitura, os estudos, as causas sociais e políticas, a espiritualidade, a cozinha, os clichês pets &amp; plantas. Busque por coletivas fêmeas de acolhida e troca, e para quando doer, pavimente caminhos de cura, terapia, meditação, autocuidado, espiritualidade. Nem sempre dá certo. Mas só quem tenta sabe se vai dar&#8230;certo mesmo é que a gente sai sempre maior quando (se) enfrenta. Em frente. Sempre.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“No estoy sola, estoy conmigo.”  (Não estou sozinha, estou comigo)</p><cite>Ana Tijoux</cite></blockquote>



<p class="has-text-align-right"><em>Michele Santos, colaboração: Juliana Félix<br>Coletivo Feminista Nísia Floresta</em></p>



<p></p>



<p><strong>Referências:</strong></p>



<p class="has-text-align-left">(1)PLATÃO. “O banquete”. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000048.pdf</p>



<p>(2)STORR, Anthony. “Solidão: a conexão com o eu”. Ed. Benvirá.</p>



<p>(3)“Estudo com 1200 genomas mapeia diversidade da população brasileira” . Folha de São Paulo. Disponível em: <a href="https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2020/09/estudo-com-1200-genomas-mapeia-diversidade-da-populacao-brasileira.shtml?origin=folha">https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2020/09/estudo-com-1200-genomas-mapeia-diversidade-da-populacao-brasileira.shtml?origin=folha</a></p>



<p>(4)“Reino Unido cria secretaria de Estado contra “epidemia” de solidão.” El País. Disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/17/internacional/1516217665_881811.html</p>



<p>Sugerido: GONÇALVES, ELIANE. “Nem só nem mal acompanhada: reinterpretando a &#8220;solidão&#8221; das &#8220;solteiras&#8221; na contemporaneidade”. Disponível em: <a href="https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0104-71832009000200009">https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0104-71832009000200009</a></p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br/so-bem-acompanhada/">Só, bem acompanhada</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://respeitaasbruxasdaquebrada.com.br">Respeita as Bruxas da Quebrada</a>.</p>
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