Close

Kundalini

Kundalini

Kundalini

A empresa sempre foi um espaço de poder e rivalidade, o desejo movia as relações, tudo estava na mira dos interesses; manter a vitalidade e a dualidade expressava exatamente a ordem e a lei na sua organicidade, a profunda capacidade de ser e existir. 

Há tempos o falo movia livremente de forma soberana e lúcida, porém, o desequilíbrio, promovido pela energia alterava a realidade.

Com o tempo e muita luta as mulheres foram avançando e em pouco tempo superaram a condição de conselheiras, há dois anos a Dra. Cecilia estava na presidência; os avanços e melhorias ficavam sucumbidas a tantas prerrogativas descabidas, de puta e louca os adjetivos não findavam na letra Z.

Ela, destemida, dava a vida por uma briga e a alma por uma vitória, perder não era um termo apropriado, e gabava por suas conquistas a duras penas e sacrifícios.

– Nos negócios, o que não vale a pena deve ser descartado, dizia ela nas reuniões de acionistas, mas no íntimo, reconhecia que tudo era capricho e ela em nome de uma ideologia já não sabia a quem pertencia, a si mesmo ou essa tal ideologia que era exatamente parte integrante de si.

Como os ânimos e a anima estavam em descompassos e a eleição estava aproximando, ela precisava se encontrar, a tal consciência e a resiliência em descompassos minavam a fé, a força e a luta.

Um mês em exercício de magia, intuiu da lua a capacidade de dominar o íntimo e o instinto como forma de poder. Nas quatro fases da lua, na sequência de 7 a 28, entrou nas regras.

Na manhã do feriado, arrumou as malas, aliás, a empregada, um doce de pessoa por sinal, é claro que assim como Dra. Cecilia, ser mulher e chefe seja lá do que for, exige gotas de sangue de parto fórceps, os filhos, da empregada assim como os de Dra. Cecilia, benze a Deus.

 O tempo cria as possibilidades, feliz quem reconhecer o tempo como mestre e senhor.

A viagem para a casa de campo durou um tempo maior que o costumeiro, é que ela viajou sozinha, e foi curtido as curvas do tempo sob uma forte tempestade. Aliás, as águas que lava também inunda, mata a sede e afoga; se fartas nas águas sem se afogar é uma manobra de sabedoria. O que é lunar, da noite, das regras das águas tem paz e pacto com a feminilidade é natural que seja assim no céu como na terra.

A empregada, que dominava as regras, conhecia os termos e obedecia às leis, tinha com o tempo um pacto e com ela um compromisso, nunca perder a cabeça e a razão, nunca se perder nas tempestades. 

A casa de campo era modesta e luxuosa, os empregados, também eram uns amores, paciente e complacente com o destino, caseiros desde que nasceram, casaram-se e ficaram por ali, os filhos se aventuraram pelos caminhos da vida, tomara que a morte faça a curva longe do destino. Para assegurar a lei e a ordem dos rebentos, fez um pacto e se comprometeu fazer em cada fase da lua uma magia de cura, proteção, sabedoria e ousadia.

Os cuidados e a receptividade foram as de sempre: – Bem-vinda doutora. Fez boa viagem?

Ela, como sempre, sisuda e cordial, descalçou logo ao descer do carro: – e por aqui, tudo bem? perguntou.

– Sim, tudo como a senhora gosta.

A empregada apressou a dizer o que havia preparado para o almoço. Fiz suficiente para a senhora e as crianças.

– As crianças … tinham compromissos, escolas, passeios e amigos, pedi para Maria ficar com eles.

Maria sabia que todas são marias, independentes de quem são.

Querendo puxar assunto, sentiu na patroa uma animosidade: – Dra. Cecilia, essa manhã apareceu uma cobra aqui, elas nunca estão só. Toma cuidado.

Cecilia escutou, mas não manifestou.

Passou a manhã e à tarde sentada escutando o que vinha de dentro e a cobra não lhe saia da cabeça. No silêncio sentiu a presença emergindo, alinhou-se, cruzou as pernas em posição de lótus e deixou fluir. 

O almoço foi servido ali mesmo, presa com o pensamento na cobra não viu o tempo passar e Maria, delicada, lhe trouxe a bandeja.

– E a cobra, você viu?

– Ele matou.

– Eles matam.

– É verdade.

A prosa foi longa, cada uma falava sozinha de si para si, ritmado, como mantra, a história de suas vidas em cumplicidades como as fases da lua.

Dra. Cecilia beliscou a comida: – pra que lado foi?

– Por ali, no bambuzal, esticando o braço para a direção.

Dra. Cecilia seguiu a direção e a empregada foi para os afazeres da vida doméstica.

Pouco andou e enxergou a vara, se ele usou essa, a cobra deve estar por perto.  Andava em sobressalto, atenta com os olhos fitados ao chão e dito e feito ela estava esticada, com as costelas quebradas o rabo e a cabeça mexendo, Dra. Cecilia se compadeceu e se reconheceu. A vida de uma mulher assim como a da cobra, com uma cajadada pode acabar. Mas, há outras vidas que só pertence a si e ninguém consegue ferir ou matar.

Se acocorou por um bom tempo, muito tempo, até esqueceu do tempo, ali acocorada a cobra a olhava, parecia pedir socorro, ela ali sentada parecia sentir a cobra e olho no olho como no Jardim do Eden, ela e a cobra eram únicas. Seria a cobra uma delas ou ela uma cobra?

Fez sentido aquela profunda imantação. Até que Dra. Cecilia quebrou o silêncio e com a íris dos olhos foi pouco a pouco dominando, conquistando provocando, induzindo-a a seu comando, e assim, totalmente intima a cobra estava em Dra. Cecilia embreadas e comandadas pela anima.

A cobra imóvel tremulava a ponta do rabo onde pulsa o coração e a cabeça dominada obedecia a sua senhora. A Dra. Cecilia, manipulava a si mesmo, dominava toda potência uterina controlava a Kundalini.

O corpo, os olhos, as pontas dos dedos, a passada, a cabeça, o olhar e a respiração, as batidas do coração, tudo era campo de vibração, de total comunhão com a energia da cobra e por muito tempo dedicaram o tempo a si, somente a si sem a interferência só com o poder da consciência. Dra. Cecilia sabia que a cobra tinha muito a lhe oferecer, mas estava ali imóvel, quebrada ao meio assim como ela, é você, ou será eu? Interrogou seu íntimo. Só o tempo tem a resposta.

Elas sabiam que depois desse momento elas nunca mais seriam as mesmas, uma mudança, uma verdadeira alteração das formas e fórmulas tinha acontecido, e essa consciência era maior e muito poderosa para ser colocada no campo dos acasos ou dos acontecimentos aleatórios a forma estava ali e dominava a força da vida e a maneira de viver.

Depois desse tempo a cobra consentiu e Dra. Cecilia sabia que a vida estava por um fio, e sem qualquer receio, com magia fez o que precisava ser feito, levantou-se foi até ao pé de mandacaru com as passadas lentas e magnetizadas, olhou aquela planta que se protegia com a mais pura ordem na natureza e ordenou: quero seu melhor espinho. A árvore simplesmente obedeceu e ela, agradecida, pegou aquele espinho afiado, voltou até onde estava a cobra que imóvel, balançando a ponta do rabo e a cabeça, como se fosse uma ordem e mirou os olhos da doutora que se aproximava lentamente, comandada, quase em estado de inércia, ébrio, dominada e fez o que tinha que fazer.

Sentou-se o mais próximo que pode da cobra, as duas olho no olho imóvel e dominadas, só o tempo para testemunhar e a natureza para abençoar, com o espinho entre os dedos, mirou ao sol e entre a visão da cobra e a sua olharam simultaneamente aquele espinho como intermediário entre os dois mundos.

A cobra deu o sinal e ela, Dra. Cecilia, ofereceu-lhe sua vida. Dominando a cobra e a si, feriu-lhe a ponta da língua e a pressionou entre os dentes, a gota de sangue pontou, vermelha, viva e foi rolando lentamente em direção à ponta da língua da cobra e naquela encruzilhada a Dra. Cecilia depositou sua própria vida.

O sangue correu por dentro da cobra e seu corpo e sua anima se reconectaram e a vida estava novamente ali em pleno vigor, floresceu entre elas uma íntima e inseparável conexão, como no passado, no Jardim do Éder, nunca foi pecado, sempre foi a mais pura e leal capacidade de entrelaçar os dois mundos pelo poder da consciência – do eu sou.

A cobra ofereceu-lhe lealdade e como cobra, traiçoeira e rastejante partiu sem deixar rastros, apenas, e entre as folhas secas da mata virgem as marcas de sua ousadia, um arco-íris sem cor desenhado sob a terra.

A Dra. Solitária e sozinha pensou, cobra é cobra, aqui e no Jardim do Éden, agora e para sempre.

– Assim como a mulher.

Ela sabia que sua vida e seu sucesso na empresa dependiam de sua capacidade de entrelaçar, lançar tomar consciência, sabia que o poder é uma questão de ordem e a ordem, ah! A ordem, é como dizem, a ordem obedece a lei e se a lei está para o universo assim como o universo está para a lei: eu, disse ela, vou tomar as providências para ser o que eu quero ser.

Ficou na casa de campo o tempo que foi necessário para se auto revitalizar.

Maria, a empregada, sabia que Dra. Cecilia agora era uma delas, conhecia o segredo dos dois mundos e como no Jardim do Éder, a consciência iluminou a escuridão que dominava o ser. A anima latente pulsava vida e vida em abundância.

Depois da conquista, Dra. Cecilia como presidente da empresa enfrentou muitas contradições, o preço de manter viva a capacidade de administrar – a lei, a ordem e o poder não tranquilizam a alma se não ousar e usar a sabedoria como princípio da vida entre os dois mundos.

Por isso, entre deslizes, acertos e precipitações o poder oposto, aquele necessário para a existência da ordem e manutenção da lei foi infalível e condenou a Dra. Cecilia à morte.

No leito entre a vida e a morte, seu corpo no lugar-comum sua anima na fronteira, avistava o portal e presa as demandas da matéria, desejava partir e ansiava por ficar. Ainda não é hora, são tantas, somos todas Evas e Marias, somos todas dominadoras de cobras e por elas seduzidas.

Lembrou daquele dia, na ponta da língua da cobra, naquela encruzilhada eu depositei minha vida. E ordenou, devolva-me.

A cobra que lhe jurou lealdade sabia que a ninguém é permitido desobedecer a lei sem consequências e foi até onde estava seu corpo, imóvel, sedado, entubado. Rastejando, desafiando as condições oferecidas a uma cobra no mundo dos humanos ela que bem sabia que o falo mata, desafiou e atravessou as fronteiras do perigo e chegou, ao leito de sua senhora.

Dra. Cecilia, imóvel, a reconheceu. Maria, a doméstica, sabia que ali naquele lugar as duas estavam seguras, dominando a sua Kundalini conduziu a cobra ao leito, agora sua vida é também a vida dela.

Maria, que já foi cobra e ainda tinha a força nas entranhas foi cúmplices no exercício da magia, dominou as duas e a cobra, rastejando comandava exatamente como fio no Jardim do Eden.

Com movimentos dominado, aproximou, firmou-se na ponta do rabo, o coração pulsava, alcançou o leito; rodeou no centro do chácara frontal a ponta do rabo na coroa, cravou a forquilha na língua, era o antídoto, sua própria essência.

Agora ela, a cobra era uma delas.

E no mundo dos invisíveis as encantadas celebravam a vida em todas as dimensões. Ora cobras, ora de outras formas, no Jardim do Éden ou em qualquer dimensão.

De volta à vida, outras, muitas, tantas e todas as Evas e Marias, cada uma a seu modo mantinha sua anima em equilíbrio em constante vigilância pela lei, dentro da ordem e com sabedoria.   

Dra. Cecilia voltou à vida, já não era a mesma, na empresa reforçou a segurança, mantinha Evas e Marias as cobras e o poder da Kundalini na mesma conexão, dominadas e fora do alcance. 

É por isso que no baú e no destino de toda mulher tem sempre um mistério e um antídoto, pode uma ser cobra ou um falo sob domínio.

Foi no Jardim do Éder que a primeira ordem foi estabelecida, domine a si mesmo e a sua Kundalini e tudo estará em ordem, ainda que o falo sob protesto grita: Cuidado com elas, são cobras.

UM CONTO DE AUGUSTA SANTO

Instagram: @augusthasanto

Facebook: Augusta Nunes

Deixe um Comentário

Deixe um Comentário

Seu endereço de email não será publicado. Campos marcados com asterisco (*) são obrigatórios